Valorizar o magistério para incentivar a licenciatura

20170228_105829

Pensar a educação em pauta

Acesso em 01/08/2017

Valorizar o magistério para incentivar a licenciatura

Raquel Angela Speck

A formação de professores no Brasil é um assunto que revela dados cada vez mais preocupantes. A falta de atratividade na carreira tem desmotivado jovens concluintes do Ensino Médio a ingressarem nos cursos de licenciatura, assim como, tem produzido altas taxas de desistência. Baixos salários, pouco prestígio social e más condições de trabalho na docência são alguns dos fatores que contribuem para a queda na demanda e no número de formandos nesta modalidade da educação superior.

A última “Sinopses Estatísticas da Educação Superior” do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), publicada em 2016, indica que de um total de 1.471.930 matrículas, apenas 237.818 alunos concluíram algum tipo de licenciatura, o que representa uma taxa de apenas 16%. A maior parte das matrículas ocorre na rede privada (60%), sendo que nesta predomina a oferta de cursos de licenciatura a distância (53,4%). Do total dos que buscam a licenciatura, 50,8% tem dúvidas se realmente querem ser professores, 15% tem certeza que não desejam ser professores (apenas querem acessar o ensino superior e depois migrar para outros cursos) e apenas 34,6% querem, de fato, exercer a profissão.

 O estudo intitulado “Conselho de Classe”, realizado pela Fundação Lemann, atesta que a formação em graduação dos professores se dá, em sua maioria, por meio de instituições privadas de ensino (65%), concluindo que o professor precisa investir capital próprio para poder acessar o ensino superior. O dado contrasta com a trajetória de formação básica destes, cuja maioria (86%) estudou em escolas públicas e pertencem às classes menos favorecidas economicamente.

 Dados da Organização para a Cooperação Desenvolvimento Econômico (OCDE) ajudam a explicar o quadro de desinteresse pela docência. De acordo com o estudo Educationat a Glance 2015, o Brasil paga aos professores um dos piores salários do mundo. A pesquisa da Fundação Lemann identificou que funcionários públicos de outras áreas, com ensino superior, recebem salários significativamente maiores que os professores. Além da baixa remuneração, o documento aponta para um alto número de alunos por professor, o que dificulta a efetivação do processo de ensino e de aprendizagem. Registra ainda que a indisciplina e a dificuldade em realizar um acompanhamento individualizado prejudicam o trabalho em sala de aula e desgastam o professor.

 O panorama se torna ainda mais preocupante quando se observam os dados da Fundação Victor Civita, que revelam que 41% do corpo docente brasileiro tem 41 anos ou mais. O estudo evidencia que o número de aposentadorias tende a superar o número de formandos nos próximos anos.

 Todos estes dados colocam o país diante de situação urgente: é preciso valorizar o professor e o magistério para que os jovens possam se interessar pelas licenciaturas. Não será possível reverter este cenário sem a oferta salários melhores, sem a construção de uma carreira atrativa, sem melhorar as condições de trabalho e sem garantir formação inicial e continuada, acessível e de qualidade.

As políticas educacionais nacionais precisam dar maior atenção a este problema, organizando as condições e provendo os meios necessários a tornar a docência mais interessante. É urgente tratar o professor como profissional, resgatar o valor social da profissão e dispor de planos de carreiras que viabilizem a permanência no magistério. Esta é uma tarefa urgente e necessária, que não pode mais ser adiada, sob o risco de se comprometer a escolarização das próximas gerações, em um país que já apresenta grave defasagem educacional.

 

 

 

Deixe o seu comentário