JC Notícias – 27/11/20

Entidades lançam edital para premiar boas práticas de professores durante a pandemia

Projeto é fomentado pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal em parceria com Itaú Social e a Undime

A pandemia do coronavírus impactou diretamente diversos setores da sociedade, entre eles, a Educação Infantil. O fechamento das unidades educativas, em março, obrigou pais/cuidadores e professores a se reorganizarem e assumirem o desafio de coordenar a aprendizagem das crianças de uma maneira até então impensada: à distância. Para reconhecer a importância do trabalho dos professores, valorizá-los ainda mais durante esse período e evidenciar as boas práticas realizadas nesse contexto da covid-19, a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, em parceria com a Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação) e o Itaú Social, lança o Prêmio Educação Infantil: Boas Práticas de Professores Durante a Pandemia.

Lançado nesta terça-feira, 24 de novembro (clique aqui para assistir ao vídeo), o prêmio vai impulsionar o trabalho dos educadores, lançar luz sobre a ação realizada com as crianças e famílias e formar um banco de boas práticas amplificando o alcance das soluções. “Queremos colaborar para que a sociedade saiba o significado e a relevância da Educação Infantil por meio das histórias e práticas dos professores, crianças e famílias”, justifica Mariana Luz, CEO da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

No total, até 100 boas práticas serão selecionadas pela Comissão de Especialistas em primeira infância, das quais 5 serão eleitas como destaques de cada uma das 5 regiões do país. “O profissional que desejamos premiar deve apresentar conhecimento do seu papel enquanto professor(a) da Educação Infantil e atuar promovendo educação de qualidade e a manutenção de vínculo com as crianças e as famílias mesmo no cenário da pandemia”, completa Mariana Luz.

Serão levados em consideração o potencial de inovação do professor, a busca por soluções diante de uma situação única e a sensibilidade e ressignificação das práticas nesse cenário pandêmico. Além disso, todos os professores premiados terão acesso a um curso de 40 horas online promovido pelo Instituto Singularidades, com atividades síncronas e assíncronas sobre a BNCC para a Educação Infantil. Os educadores receberão o valor líquido de R$ 1 mil com a finalidade de tornar ainda melhores as práticas inscritas e realizadas no dia a dia com as crianças e familiares.

Com inscrições abertas até 14 de dezembro de 2020, o profissional interessado em participar deve ter mais de 18 anos, ser professor de Educação Infantil da rede pública direta ou conveniada com o poder público, ter atuado na função em 2020 e possuir formação mínima de magistério, graduação em pedagogia ou outra licenciatura, segundo a Lei de Diretrizes e Bases de Educação (LDB). Para mais informações, regulamento completo e inscrições, clique aqui.

Sobre a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal

Desde 2007, a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal trabalha pela causa da Primeira Infância com o objetivo de impactar positivamente o desenvolvimento de crianças em seus primeiros anos de vida. As principais frentes de atuação da Fundação são a promoção da Educação Infantil de qualidade, o fortalecimento dos serviços de parentalidade, a avaliação do desenvolvimento da criança e das políticas públicas de primeira infância e a sensibilização da sociedade sobre o impacto das experiências vividas no começo da vida.

Sobre a Undime

União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) é uma associação civil sem fins lucrativos, fundada em 1986. Quando o tema é educação pública a Undime está sempre presente. Seja na educação infantil, de jovens e adultos, campo, indígena, quilombola, ensino fundamental, alfabetização, educação inclusiva ou na educação para a paz. Temas como carreira e formação dos trabalhadores em educação, gestão democrática, políticas públicas sociais, articulação com os governos, a sociedade, a família, a criança e o jovem estão constantemente em pauta. A Undime respeita e representa a diversidade do país, ao reunir os gestores dos 5.570 municípios brasileiros. Sua missão é articular, mobilizar e integrar os Dirigentes Municipais de Educação para construir e defender a educação pública com qualidade social.

Sobre o Itaú Social

Com a missão de desenvolver, implementar e compartilhar tecnologias sociais para contribuir com a melhoria da educação pública brasileira, o Itaú Social é o braço de responsabilidade social do Itaú. Sua atuação hoje está relacionada a dois pilares de atuação: formação de profissionais da educação e fortalecimento da sociedade civil.

MEC

 

A classificação é uma das funções da avaliação?

Benigna Villas Boas

Consideram-se como funções da avaliação: a diagnóstica, a formativa e a somativa. Por que a classificação não está incluída? Segundo o dicionário Novo Aurélio – século XXI, da Editora Nova Fronteira, a palavra função significa ação própria ou natural. Sendo assim, não é próprio da avaliação ser classificatória porque o seu propósito é apoiar as aprendizagens de todos os estudantes e não, distribuí-los em grupos. Ela passa a ser classificatória quando se presta a comparar, o que pode acontecer de várias formas: por meio de notas ou menções, separando os estudantes em grupos (fortes, médios e fracos, aprovados e reprovados e outros), atribuindo-lhes rótulos de inteligentes, esforçados, preguiçosos, desanimados etc. Mesmo quando ela segue esse rumo, não se pode atribuir-lhe a função de classificatória.

Note-se que as três funções apontadas acima têm um propósito. À formativa cabe orientar as aprendizagens de todos os estudantes, por meio de trabalho colaborativo entre eles e os professores/as. A diagnóstica se encarrega de identificar o que e como estão aprendendo e o que lhes falta aprender, para que a função formativa entre em ação. As funções diagnóstica e formativa se imbricam. A somativa faz um balanço do trabalho desenvolvido, é pontual, isto é, ocorre em momentos definidos para conhecer o que foi aprendido em determinados períodos, como em uma unidade, um mês, projeto, semestre ou ano letivo. A formativa e a somativa não se opõem: uma complementa a outra, desde que a última não inclua classificação.  

 

CNE: “pauta bomba” inclui DCNs da Pedagogia

Por Luiz Carlos de Freitas

Esta semana, o Conselho Nacional de Educação continua com sua “pauta bomba” contra a educação pública brasileira. Entre os assuntos está a revisão das Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Pedagogia. O Blog da Helena indica o caminho: “O CNE deu continuidade à revisão das Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Pedagogia sem qualquer […]

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Luiz Carlos de Freitas | 12/11/2020 às 3:43 PM | Categorias: Assuntos gerais | URL: https://wp.me/p2YYSH-7w2

 

Maioria dos alunos que moram em favelas ficou sem estudar na pandemia, mostra pesquisa

JC Notícias, 09/11/2020

Moradores revelam ao DataFavela medo de abandono escolar e insegurança com retorno presencial aos colégios

Mais da metade (55%) dos estudantes de favelas do Brasil estão sem estudar durante a pandemia. Parte (34%) não consegue participar por falta de acesso à internet, e outra parcela (21%) não está recebendo as atividades da escola ou faculdade na qual está matriculada.

A informação é de uma pesquisa obtida com exclusividade pelo GLOBO e realizada pelo instituto DataFavela, uma parceria entre o Instituto de Pesquisa Locomotiva e a Central Única das Favelas (Cufa). O levantamento ouviu 3.585 alunos, universitários e pais de estudantes de comunidades de todo o país, entre 9 e 10 de setembro.

Veja o texto na íntegra: O Globo

O Globo não autoriza a reprodução do seu conteúdo na íntegra. No entanto, é possível fazer um cadastro rápido que dá direito a um determinado número de acessos.

 

Pandemia escancara falta de preparo tecnológico de professores, diz especialista

JC Notícias – 05/11/2020

A professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Maria Elizabeth Bianconcini de Almeida, apresentou a conferência “Formação de professores para a era da informação e das tecnologias digitais” nessa quarta-feira, 4 de novembro, durante a 72ª Reunião Anual da SBPC  

Com a pandemia provocada pelo novo coronavírus, a falta de preparo tecnológico dos professores e de instituições para as aulas remotas ficaram em evidência, afirma Maria Elizabeth Bianconcini de Almeida, professora associada da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), durante sua conferência “Formação de professores para a era da informação e das tecnologias digitais”, realizada nessa quarta-feira, 4 de novembro. A atividade foi apresentada pelo professor adjunto do Instituto Metrópole Digital da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Charles Andryê Galvão Madeira.

Para ela, a pandemia deixou claro que os professores necessitam maior domínio das tecnologias para aplicarem no aprendizado, mas, para isso, precisam de capacitação. “O professor precisa ter não só fluência digital, mas entender as contribuições que as tecnologias trazem para os processos de ensinar, aprender e desenvolver o currículo para poder discernir qual tecnologia usar em cada situação. E como as tecnologias estão em contínua evolução, esse professor terá de ter o desenvolvimento profissional. Ou seja, aprendizagem ao longo da vida.”

Para ela, as tecnologias não estavam incorporadas no currículo dos cursos, inclusive nos de licenciatura. “Essa integração transversal no currículo não acontecia”, observa.

“Quando se olha para trás e falamos de tecnologias e formação de professores é possível enxergar uma trajetória percorrida, mas que há muitos desafios.  A cultura digital afeta todas as instâncias da educação e para a prática pedagógica oferece potencialidades, ganhos, riscos e dificuldades”, comenta. Para ela, essa cultura não substitui, mas afeta todas as instâncias da educação e traz grandes potencialidades para a melhoria da educação, mas que, para isso, requer ressignificar o currículo e reconfigurar a formação dos professores.

Outro problema apontado pela especialista é que as diretrizes usadas nas aulas remotas são baseadas em teorias que constam em currículos da Finlândia e Singapura, muito distantes da realidade da educação brasileira. “Estamos diante de contradições, por isso, precisamos nos posicionar para que este momento possa inspirar mudanças na formação de professores.”

Ela avaliou a decisão do Ministério da Educação (MEC), que autorizou a realização de estágio a distância até dezembro de 2020.  “Os alunos de licenciatura vão poder acompanhar professores de educação básica no ensino remoto, o que antes não acontecia. Ou seja, esse aluno está tendo a oportunidade de enxergar que os cursos não os preparavam para isso. Essa pandemia está mostrando o caminho que iremos percorrer nos próximos anos. Está claro que a instituição formadora terá de implantar novas diretrizes até o final do ano que vem”, explica.

Assista aqui à conferência na íntegra.

Vivian Costa – Jornal da Ciência

 

Rose e Enílvia em roda de conversa do XX ENDIPE 2020

Em uma das rodas de conversa promovidas pelo XX ENDIPE 2020, no dia 30 de outubro, as gepanianas Enílvia e Rose apresentaram resultados da pesquisa por elas desenvolvida em 2019, em uma escola pública do Distrito Federal onde foi implantado o Projeto Escola de Gestão Compartilhada (modelo cívico-militar de organização escolar). O foco da investigação foi a avaliação e suas implicações para a conquista de aprendizagens. Foi acertada a decisão das pesquisadoras de desvelarem o clima avaliativo de uma escola comprometida com esse projeto para bem compreenderem os seus meandros.

A pesquisa ouviu professores, pais/responsáveis e estudantes, gerando dados que têm potencial para subsidiar a Secretaria de Educação do DF para repensar a conveniência da continuidade desse Projeto.

A maioria dos pais/responsáveis, estudantes e professores participantes da pesquisa considerou a segurança, disciplina e organização do ambiente escolar como aspectos que melhoraram a partir da implementação do projeto Gestão Compartilhada. Contudo, foram apontadas muitas fragilidades, tais como: perda de autonomia da escola pela condução do seu trabalho; interferência no trabalho pedagógico de sala de aula; imposição de regras quanto a uniforme, à circulação pela escola, a penteado dos estudantes e a seu visual, dentre outros aspectos. Informações completas sobre o trabalho poderão ser lidas em um artigo por elas submetido para publicação.   

 

Como e quando se formam os professores

Benigna Villas Boas

Durante a pandemia do corona-vírus tenho pensado muito sobre a formação de professores. Tenho acompanhado situações de ensino remoto nada convencionais, que merecem algumas reflexões.  

Recentemente, em uma reportagem pela TV, vi uma professora gravando uma aula para seus estudantes acompanharem remotamente, durante a qual ela desenvolvia atividades de matemática sobre azulejos na cozinha da sua casa. Uma aula dinâmica, prazerosa e impensável. Justificou sua decisão dizendo que seus estudantes estavam desmotivados com as aulas remotas. Por isso introduziu algo que os animasse e prendesse sua atenção.

Outra professora de uma cidade do interior de Minas Gerais tem formulado atividades individualizadas, em folhas de papel, escritas a mão por ela e colocadas em sacolas plásticas, que ela prende na grade externa do jardim das casas dos seus estudantes. Dias depois ela volta para recolher as folhas com as atividades desenvolvidas.

Quando e como estas duas professoras aprenderam a agir assim?

Estas iniciativas nos levam a pensar sobre a formação dos professores, que tem início antes mesmo de frequentarem cursos de licenciatura, como estudantes da educação infantil, do ensino fundamental e médio. Quem nunca viu crianças de cerca de 4 ou 5 anos de idade chegarem em casa, após as aulas, reunirem seus brinquedos e fingirem que são seus alunos? Presenciei esta situação em minha casa. Minhas filhas davam aulas para os bichinhos de pelúcia e de borracha e para as bonecas. Uma delas falava muito alto e apontava o dedo para eles e eu pensava: sua professora deve agir assim.  

Os episódios mais presentes nas simulações das crianças pequenas costumam ser os relacionados à avaliação. Talvez chamem tanto a sua atenção por conferirem poder aos professores. Elas captam muito bem a maneira de eles interagirem com elas. O que presenciam em sala de aula impregna o seu jeito de ser e de ver o mundo. Quem não se lembra do cantinho para pensar, dos recreios suspensos, das provas como momentos angustiantes, dos riscos vermelhos sobre atividades consideradas “erradas”, das provas difíceis para punir mal comportamento? Por meio de vivências deste tipo, os que escolherem cursos de licenciatura começam a se formar.

A formação inicial de professores deve incluir o letramento em avaliação, constituído por saberes e as práticas avaliativas vivenciadas nas diferentes atividades do curso. Isto quer dizer que, enquanto desenvolvem estudos sobre avaliação, o processo avaliativo por eles vivenciado completa o seu letramento. Tradicionalmente, “ensinam-se” conteúdos desconectados das experiências de avaliação em sala de aula. Por exemplo: aprende-se, em livros e textos, o que é autoavaliação, em que ela seja praticada. Apregoa-se a necessidade do uso do feedback, mas ainda não há apropriação dos seus objetivos, características e modus operandi. Os professores nem sempre o usam como recurso para o avanço das aprendizagens.

O letramento em avaliação tem sido negligenciado. Os futuros docentes não têm participado da avaliação condizente com a sua atuação futura nas escolas de educação básica. Esta situação os torna fragilizados quando se tornam professores.  

A pandemia tem evidenciado a necessidade de a formação de professores aproximar-se das iniciativas das escolas de educação básica. Neste momento de afastamento social, os professores estão incorporando novas aprendizagens. Estão buscando meios para que seus estudantes sem acesso à internet não fiquem para trás. Já os docentes de cursos de licenciatura contam com mais possibilidades para desenvolverem atividades online e dar prosseguimento ao processo de aprendizagem. Indago: estarão os dois segmentos em articulação? A educação básica conta com os cursos de licenciatura, encarregados da formação dos professores. Estes cursos, por sua vez, para bem cumprirem o que deles se espera, devem estar em sintonia com o trabalho pedagógico das escolas de educação básica. As atividades de estágio e de residência pedagógica, quando devidamente acompanhadas pelos professores dos cursos de licenciatura, o que inclui contatos com as escolas onde são desenvolvidas, constituem formação continuada para os docentes destes cursos. Costuma-se falar em formação continuada para professores da educação básica, mas esta expressão se aplica também aos docentes das universidades. Refiro-me à sua formação continuada no sentido de estarem em dia com as necessidades das escolas de educação básica.

A permanente aproximação do que chamo de dois segmentos (o dos professores da educação básica e o dos professores dos cursos de licenciatura) constitui uma rica oportunidade para aprenderem um com o outro. Estes dois segmentos devem estar afinados e aproveitar todas as oportunidades para aprendizagem mútua.

A pandemia está apontando a necessidade de criação de ambiente mais colaborativo entre esses dois segmentos. Cada um isoladamente fará pouco. O letramento em avaliação, desenvolvido em cursos de licenciatura, ganha destaque em função das aulas remotas, que requerem processo avaliativo próprio. Este é um dos temas que clamam por construção de saberes e práticas. Trata-se de um fértil campo de trabalho para os docentes dos dois segmentos. Mas, atenção: esta é uma tarefa dos educadores profissionais e não de empresas, movidas por outros interesses.  

 

A fé nas avaliações

Por Luiz Carlos de Freitas, no blog do Freitas, em 29/10/2020

A mentalidade meritocrática que assola os meios educacionais encontra dificuldade para, em tempos de pandemia, lidar com a questão da avaliação. Determina esta mentalidade que as avaliações devem continuar, mesmo neste caos pandêmico, pois qualquer outra forma seria apoiar a implementação da “promoção automática”. A fé nas avaliações padronizadas é difícil de ser aplacada. É […]

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Luiz Carlos de Freitas | 29/10/2020 às 9:26 AM | Tags: Pandemia, política com evidência, Reformadores empresariais, Resistência, Revisões NEPC | Categorias: Ideb, Links para pesquisas, MEC sob Bolsonaro, Pastor Milton no MEC, Responsabilização/accountability, SAEB, Saresp, Segregação/exclusão | URL: https://wp.me/p2YYSH-7vo

 

Pandemia dá chance ao Brasil para reavivar seu sistema educacional, diz diretor da OCDE

JC Notícias, 27/10/2020

Para Andreas Schleicher, sociedade enxergou nova face da escola e deve cobrar seu fortalecimento

Ainda que a suspensão das aulas presenciais por causa do novo coronavírus tenha impacto negativo na educação, Andreas Schleicher, uma das maiores autoridades em avaliação do ensino do mundo, diz acreditar que a pandemia pode ter trazido uma nova chance ao país.

Para o diretor de educação da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), depois de um período de acomodação com os resultados educacionais, o Brasil tem a oportunidade de reavivar os investimentos e políticas para a área.

“Com a pandemia, as famílias enxergaram uma face das escolas que muitas vezes ficava escondida: seu papel social, emocional. Acredito que isso possa resultar em um ambiente mais colaborativo entre escola e famílias e, consequentemente, em uma maior cobrança dos pais por melhorias na educação”, disse à Folha.

Veja o texto na íntegra: Folha de S. Paulo

O Grupo Folha não autoriza a reprodução do seu conteúdo na íntegra. No entanto, é possível fazer um cadastro rápido que dá direito a um determinado número de acessos.

 

A relação entre o avaliador e o avaliado: territórios de poder?

Por: Erisevelton Silva Lima (Professor e gestor escolar na SEEDF, formador credenciado pela ENFAM, Doutor em Educação pela Universidade de Brasília-UnB)[1]

A avaliação e o clima que se instaura em torno dela sempre foram alvos de críticas e receios quase sempre naturalizados por aqueles que avaliam. Enquanto isso, do outro lado da mesa, os sujeitos avaliados ficam expostos, indefesos e muitas vezes oprimidos por causa da relação verticalizada de poder demarcadora daquele instante e dos seus efeitos. Freitas (2009) nos lembra que a avaliação abre ou fecha portas, isso parece simples e natural, mas não é. O que evoco para esta discussão diz respeito à postura do avaliador que a meu ver será, sempre, uma questão ética (nem mais, nem menos). Por causa disso, trago para nossa reflexão a linha tênue que separa o sentido de autoridade da prática do autoritarismo quando o assunto é o poder que está implícito no ato de avaliar.

 Ao enfrentarmos o conceito estruturalista do poder trazido por Foucault (2008), nem minimizamos nem ampliamos os efeitos do que produz a avaliação. O professor e o aluno só o são na escola e nas suas dependências, onde as atividades são, quase sempre, demarcadas por datas, prazos e outros penduricalhos institucionais. A vida e seu cotidiano não só invertem os papéis, como destituem-nos deles; na verdade, inauguram outros nem sempre adornados pelo efeito do direito, da norma ou da regra. Mesmo assim, encarar a avaliação, seu uso e suas intencionalidades pode reverberar nas nossas maiores inquietudes no campo relacional da escola e das suas teias sutis quando o assunto é fazer obedecer. Atualmente, avaliar o avaliador ainda é terreno complexo e comprometedor sobre o qual paixões e disputas parecem não ter fim. Se a avaliação não pode ser um fim em si mesma, isto deveria valer para os sujeitos que avaliam, normalmente representados por chefes, professores ou alguma forma de autoridade, concordam?

A bem da verdade, ninguém coloca uma roupa nova e bonita e aguarda felicíssimo o momento de uma suposta avaliação, pode ser que após o resultado o faça, do contrário parece mais um rito de dor e sofrimento do qual não se pode fugir, caso queira transpor um estado ou condição. As mitologias nos trazem inúmeros exemplos do que pode acontecer com quem não corresponde ao desejo do avaliador ou perguntador, qual seja: decifra-me ou te devoro. As lógicas que invadem essa relação são inequívocas, representam poder e o uso que se pode fazer dele. A reprovação, em nosso caso, por mais “lógica” que seja, é a esfinge da vez e da hora. Não vamos discutir sua validade, apenas consideremos sua existência e o poder que dela emana. Arendt (2010), por exemplo, lembra-nos que a violência se converte numa estratégia ou metodologia que visa a garantia do domínio. E a escola, via de regra, usa de tal artefato para assegurar seus fins, se eles são bons ou ruins o tempo testemunhará. A esta altura alguns podem perguntar-me: poderia ser diferente? Poderia ser menos sofrida esta relação?

A resposta é sim, pode e deve ser diferente e menos sofrida. O avaliado não precisa ser exposto, o tratamento formal e informal que dispensamos pode e deve ser respeitoso. Os instrumentos não podem conter erros e armadilhas, as reais intenções e interesses dessa avaliação devem ser pautadas pela ética e pelo humanismo. Mesmo quando a avaliação se destina a selecionar pessoas para um cargo ou emprego, não precisa depreciar, diminuir ou expor os avaliados. Conduzir processos avaliativos de maneira acolhedora e transparente ajuda, inclusive, na aceitação dos resultados, quando nos sentimos injustiçados quanto à forma, dificilmente aceitaremos os resultados. Van Yperen (1998), em um estudo com profissionais da área de saúde, constatou que quanto mais baixos forem os níveis de informação e equidade dispensados aos sujeitos, maiores serão as incidências de estresse e exaustão emocional, seja no trabalho ou numa relação de poder, como ocorre com a avaliação. Por fim, o território, como bem definiu Santos (1996), não se impõe ou define pela materialidade de uma gleba ou cerca que o institui, são as relações simbólicas e as práticas materiais que legitimam certas apropriações. No caso da avaliação ou do uso que dela se faz, pode reificar os sujeitos transformando o campo do saber e do poder em “terrenos” áridos e instransponíveis. Se a escola existe para garantir as aprendizagens de todos, estaria o uso dos processos avaliativos na contramão da função social da escola? Respondam-me vocês.

REFERÊNCIAS

ARENDT, Hannah. Sobre a Violência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

FREITAS, Luiz Carlos de (et al). Avaliação Educacional: caminhando pela contramão. Vozes, 2009.

FOUCAULT, Michel. Micro Física do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 2008.

VAN YPEREN, N. W. (1998). Informational support, equity and burnout: The moderating effect of self-efficacy. Journal of Occupational and Organizational Psychology71, 29-33. 


[1] Secretaria de Estado da Educação do Distrito Federal – SEEDF, Escola Nacional de Aperfeiçoamento e Formação de Magistrados – ENFAM