Pandemia deve intensificar abandono de escola entre alunos mais pobres

JC Notícias – 23/07/2020

Dos quase 50 milhões de brasileiros entre 14 e 29 anos, mais de 20% – ou seja, 10,1 milhões de jovens – não completaram alguma das etapas da educação básica

No litoral cearense, há alunos do ensino médio que já não conseguem mais acompanhar as aulas online, porque têm de trabalhar durante o dia inteiro. No interior do Piauí, educadores recorrem a visitas domésticas e vídeos motivadores para tentar atrair os estudantes que não têm aparecido nos encontros virtuais. Em São Paulo, alunos de baixa renda atendidos por uma organização sem fins lucrativos temiam “voltar para a estaca zero” nos estudos em meio à pandemia.

Em todos esses lugares, são vários os relatos de estudantes sem equipamentos ou conexão à internet, famílias em situação econômica cada vez mais frágil, professores com crescentes dificuldades em manter os alunos engajados nas aulas remotas e pais tanto ansiosos quanto temerosos pela perspectiva da volta às aulas presenciais — marcada, em alguns Estados, para agosto ou setembro.

O resultado dessa combinação é que cresce o temor, entre educadores e pesquisadores, de que as circunstâncias impostas pela pandemia façam com que mais estudantes simplesmente desistam da escola neste ano, engordando as estatísticas de evasão escolar no Brasil.

Leia na íntegra: BBC Brasil

 

Resultados da última PNAD contínua: repensando o agora e o futuro da educação

Por Benigna Villas Boas

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – PNAD Contínua, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na quarta-feira, 15/07, revela que existem 11 milhões de analfabetos(as) com mais de 15 anos no Brasil. A pesquisa mostra ainda que, dos(as) 10 milhões de jovens na faixa dos 14 e 29 anos que deixaram de ir à escola, 71,7% são pretos(as) ou pardos(as) e enfrentam as inúmeras desigualdades de nossa sociedade.

Cabe lembrar que essa juventude à qual se refere a pesquisa é excluída tecnologicamente, não tem condições de ler material atualizado, nem o possui, não se insere em ambientes favoráveis aos estudos e tem necessidade de trabalhar. Tudo isso a deixa à margem do conhecimento.

A pesquisa ainda revela que, dos estudantes do ensino médio, 39,1% abandonam os estudos para trabalhar e auxiliar nas despesas de suas famílias, 23,8% das mulheres engravidam ao longo dos estudos e acabam por abandoná-los.

Nas universidades também ocorre evasão. Vejamos: apenas 17,4% dos estudantes completam seus estudos; dentre os que têm 25 anos ou mais, 4% permanecem com o curso incompleto. E mais: 73,7% dos estudantes de graduação frequentam uma instituição de ensino privada. Nos cursos de pós-graduação, 74,3% dos estudantes frequentam instituições privadas, o que significa que pagam seus estudos.  

Aliando esse cenário à situação de pandemia, quais desafios a educação enfrenta daqui para a frente? Muitos costumam pensar em ações pós-pandemia. Não é o meu caso. Não podemos postergar soluções. Se acumulamos esses problemas, é necessário atuar agora. O reerguimento da economia necessita da contribuição da educação escolar. O país só poderá se desenvolver com a população educada e bem informada, bem alimentada, morando dignamente e trabalhando.

O ensino médio necessita urgentemente de currículo, escolas e trabalho pedagógico fortes, assim como de professores formados adequadamente para atuar em todos os componentes curriculares. As escolas precisam ter autonomia para que não fiquem sempre dependentes de decisões burocráticas. Este momento requer ações rápidas e certeiras, para que todos estudantes aprendam. Dificuldades quanto à distância das escolas às suas moradias, a ferramentas tecnológicas, a livros e outras têm de ser removidas.

Intervenções pedagógicas precisam ser imediatamente colocadas à disposição de quem necessita. Não estou falando de recuperação de estudos. Este formato pertence ao passado. Para que as intervenções cumpram seu papel, o feedback aos estudantes é fundamental. Nesse contexto, entra com força a avaliação formativa, voltada para as aprendizagens e não para a reprovação. Esta figura não traz contribuição ao trabalho pedagógico a ser desenvolvido daqui para a frente. É hora de abandoná-la de vez. Mas, calma! Não defendo a promoção automática. Não se trata disso. Todos os estudantes estão na escola para aprender e não para passar de ano. Cabe-lhe criar os meios para que aprendam. O ano escolar não necessita coincidir o ano comercial.

A evasão nas universidades costuma ter como causas o desencanto pelo curso e pela atuação de professores, além de outras. Os docentes desse nível não são formados para tal e costumam dar mais ênfase a pesquisas, pela exigência de produção que lhes é imposta. Estranho: fazer pesquisas, escrever livros e artigos contam mais em seus currículos do que dar aulas. Mesmo a orientação a estudantes não é tão valorizada. Os estudantes reclamam que são abandonados: assistem a aulas e se viram. Isso precisa mudar.

Os resultados da PNAD revelam as desigualdades de acesso e de permanência nas escolas e nas universidades. A crueldade da pandemia que estamos vivenciando nos obriga repensar o agora e o futuro da educação dos nossos jovens, que vem sendo negligenciada há muito tempo. Convido professores da educação básica e superior, estudantes e seus pais para redesenharmos a educação que nos interessa.  

 

É preciso permitir que as pessoas falem sobre suas experiências de distanciamento social na volta às aulas, diz Renato Janine Ribeiro

JC Notícias – 16/07/2020

O ex-ministro da educação e professor de ética e filosofia da USP apresentou a conferência “Educação nos novos tempos” nessa quarta-feira, 15, durante a Mini Reunião Anual Virtual da SBPC

Durante a palestra “Educação nos novos tempos”, o professor de Ética e Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), Renato Janine Ribeiro, ressaltou que o maior desafio imposto pela pandemia, além da aplicação do conteúdo pragmático, é a criação de espaços de diálogos para que professores, funcionários e alunos possam conversar sobre suas percepções e sentimentos. A atividade, que faz parte da Mini Reunião Anual Virtual da SBPC, foi apresentada pela vice-presidente da entidade, Fernanda Sobral.

Janine disse que o isolamento social interrompeu a socialização, tão importante na educação, e que a situação só não foi pior graças à internet. Por isso, é preciso permitir que as pessoas falem sobre suas experiências de distanciamento social. “Nós estamos vivendo uma pancada emocional e ao voltar às aulas, ao trabalho, eu recomendo que é preciso tratar este trauma. E os professores, chefes, dirigentes, precisam ter o mínimo de formação psicológica para saber escutar, já que todos precisam falar de sentimentos. Isso é possível, mas requer muito trabalho”, afirma. Em referência a uma observação da chanceler alemã Angela Merkel, Janine descreveu a pandemia como o maior desafio mundial desde a Segunda Guerra.

“Muita coisa pode ser feita de modo remoto, mas a socialização não.  E educar é de dentro para fora. E, ao tirar a criança de dentro de casa, ela descobre que além dos irmãos, têm outras crianças. Que além dos pais, têm outros adultos. E esse aspecto está sendo prejudicado”, explica Janine, que é também conselheiro da SBPC.

Ao falar sobre o ensino à distância, Janine abordou os abismos socioeconômicos entre os alunos do ensino privado e público, especialmente nas periferias. “No âmbito público os educadores estão esbarramos com, além da falta de preparo, falta de equipamentos, inexistência de acesso à banda larga. Muitos alunos vivem em lugares pequenos e não conseguem um espaço reservado para estudar”, lamenta.

Quanto à postura do Ministério da Educação diante da pandemia, Janine, que foi ministro da Educação por cerca de sete meses em 2015, durante o governo de Dilma Rousseff (PT), afirma que a Pasta “primou pela ausência absoluta”. “Os secretários estaduais e municipais tiveram que se virar. E os municipais estão fazendo voo solo. Eles estão sem capacidade de se articular, de construir estratégias conjuntas. São eles que lidam com o ensino infantil. E é lá que as crianças são mais vulneráveis”, afirma.

Para o professor da USP, a alfabetização das crianças no ensino básico deve ser priorizada. “Temos de priorizar a alfabetização na idade certa, como aconteceu no Ceará, com governo de Cid Gomes, em 2007, e depois foi nacionalizado em 2013, com o ministro Mercadante. A ideia é que cada município foque nisso, mas o MEC errou em não incluir os Estados como parceiros fortes”, disse.

Assista aqui à conferência na íntegra.

A Mini Reunião Anual Virtual da SBPC segue por toda a semana e maiores informações podem ser obtidas acessando este link: http://ra.sbpcnet.org.br/mini-ravirtual/

Vivian Costa – Jornal da Ciência

 

A pandemia e as aprendizagens não construídas

Enílvia Rocha Morato Soares

Parece consenso o reconhecimento quanto à gravidade dos diversos prejuízos decorrentes da crise da covid-19 e do consequente período de isolamento social adotado como meio de conter o acelerado contágio desse novo vírus. A educação não foi poupada. A suspensão de aulas presenciais suscitou diferentes análises contextuais seguidas, algumas vezes, de proposições visando minimizar as consequências negativas sobre o trabalho escolar público e privado. Não pretendo aqui reafirmar ou contestar qualquer uma delas, até porque o posicionamento do GEPA, já expresso neste espaço, contempla minhas percepções pessoais a esse respeito.

Atenho-me, aqui, a ponderar a sobre aprendizagens que, por não terem sido construídas ou construídas superficial e ou inadequadamente nos tempos pré-pandemia, dificultam, quando não impedem a concretude de iniciativas que serviriam agora para melhor lidar com o distanciamento físico na escolarização de jovens e crianças. Não se trata de “chorar o leite derramado”, mas de compreender que o atual momento só pode ser pensado a partir de uma realidade concreta pré-existente e que o reconhecimento da necessidade dessas aprendizagens pode contribuir para a melhoria do ensino escolar durante e depois da quarentena.

 O planejamento participativo do trabalho escolar desenvolvido no âmbito de toda a escola, e a avaliação que dele se faz ao longo de sua implementação, estão entre as aprendizagens que hoje se mostram frágeis, dificultando a implementação de medidas que poderiam contribuir para atenuar as adversidades que se impõem frente ao desafio de dar continuidade às atividades escolares. O destaque do projeto político-pedagógico (PPP) e da avaliação para fins de análise, justificado pelo curto espaço de discussão, não desconsidera, porém, o déficit de outras importantes aprendizagens, como as relacionadas ao trabalho colaborativo, à gestão democrática e ao currículo escolar.

Pensar o processo de escolarização por meio do ensino remoto descolado do que havia sido planejado pelo coletivo escolar para o ensino presencial pode estar constituindo obstáculo ao desenvolvimento das atividades escolares. Isso não significa que o PPP pensado para o trabalho presencial possa agora ser desenvolvido nos mesmos moldes. Mas também não significa que deva ser desconsiderado. É preciso lembrar que as ações previstas conjuntamente nesse documento se assentam em concepções e princípios que expressam o compromisso dos sujeitos envolvidos na construção da escola que se quer a partir da escola que se tem. Isso significa que o novo contexto de distanciamento social impõe revisões no projeto pensado para outra realidade, mas ainda norteadas pelo propósito de fazer efetivar a função social da escola por meio da definição de práticas educativas necessárias ao alcance de tal propósito.

A dinamicidade que caracteriza o PPP e permite repensá-lo sempre que necessário é viabilizada pela avaliação. Isso porque, diferente do documento puramente formal e estático que comumente se vê, o desafio do projeto institucional não se encerra na sua existência ou mesmo no seu desenvolvimento, mas compreende a sua permanente avaliação.  Caminhar rumo à consolidação de um trabalho escolar que ensine a todos não prescinde de um planejamento participativo consistente, porque coletiva e sistematicamente avaliado. A relevância de avaliações que permitam repensar e reconstruir o trabalho projetado a princípio se mostra indispensável, especialmente em momentos de grandes mudanças como o que estamos vivendo.

No entanto, são os processos avaliativos centrados no aluno que têm ganhado centralidade. Preocupações se voltam à necessidade de cumprir o calendário escolar para, daí, atribuir notas, aprovar ou reprovar. Pouco se fala em análise dos projetos escolares como meio de vislumbrar caminhos para adequação à nova realidade, sem perder de vista a imprescindibilidade de promover as aprendizagens de todos, mesmo que, nesse momento, não sejam elas necessariamente vinculadas aos conteúdos curriculares.

Não se nega a importância de diretrizes gerais para o encaminhamento dos trabalhos desenvolvidos em e por cada escola. No entanto, é a idealização de uma realidade consubstanciada em um projeto pedagógico colaborativo e em constante transformação que confere a cada instituição, mesmo que de modo relativo, a autonomia necessária para a tomada de decisões que apontem para um fazer pedagógico solidário e democrático, porque em consonância com suas particularidades.

Fica a esperança de que a insuficiência de aprendizagens, como as aqui apontadas, e outras tantas que obstam a democratização dos saberes escolares sirva de alerta para que busquemos consolidá-las com a maior brevidade possível.

 

Provas do Pisa de 2021 e 2024 são adiadas por causa da pandemia de covid-19

JC Notícias- 15/07/2020

A próxima edição foi remarcada para 2022. A edição seguinte só ocorrerá em 2025

A pandemia de Covid-19 provocou o adiamento das próximas edições do Pisa, a avaliação internacional da educação básica realizada pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

A cada três anos, o Pisa testa estudantes entre 15 e 16 anos de mais de 70 países e territórios.

A próxima edição ocorreria​ em 2021 e foi remarcada para 2022. A edição seguinte, prevista para 2024, só ocorrerá em 2025.

“Os países membros e associados da OCDE decidiram adiar a avaliação do Pisa 2021 para 2022 e a avaliação do Pisa 2024 para 2025″, diz nota da organização, que indica o reflexo das “dificuldades pós-Covid” como motivo da decisão.

Leia na íntegra: Folha de S. Paulo

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Webinar com Domingos Fernandes, organizado pelo Instituto Ânima

Como avaliar a aprendizagem dos estudantes em ambiente on-line? Uma reflexão para além da avaliação

Elisângela T. Gomes Dias

O professor Domingos Manuel Barros Fernandes, em participação na webinar organizada pelo Instituto Ânima e realizada em oito de maio de 2020, entende que não há diferenças significativas entre a avaliação praticada no dia-dia, no ensino presencial, com a avaliação on-line realizada nas aulas remotas, durante o período de isolamento social. O que está emergindo nesse momento acerca do papel da avaliação, em que fizemos um giro de 180º para termos condições de dar continuidade ao processo pedagógico, é o que vem sendo discutido e sinalizado pelas pesquisas científicas nas últimas décadas. “Temos que distinguir claramente a avaliação da classificação. Avaliar é um processo eminentemente pedagógico e vinculado à aprendizagem, enquanto a classificação é um algoritmo”, frisou o professor. Reivindicamos uma outra visão do ensino e práticas avaliativas integrativas e que alimentem a ação didática; uma avaliação a serviço da aprendizagem, enfatizou o professor. Avalia-se para planejar, orientar e retroalimentar o trabalho pedagógico. Além disso, de certa maneira, os estudantes constroem suas concepções sobre o que é importante ou não aprender a partir da forma como o professor avalia, dadas as consequências geradas por essa ação.

Em Portugal, está havendo um esforço muito grande para que ninguém fique para trás, especialmente em função do suporte dos professores, que têm um papel insubstituível. A tecnologia, segundo relato de Domingos Fernandes, não é a questão central. Está sendo bem acessível aos estudantes portugueses. O desafio são as mudanças metodológicas, pois não podemos simplesmente transpor o formato das aulas presenciais para as aulas a distância. Temos que explorar nossa imaginação, nossa criatividade. Então, é necessário pensar sobre o que e como as crianças e os jovens devem aprender nessas circunstâncias. A nossa opção pedagógica é a principal questão. Queremos que os estudantes participem mais ativamente? Que recursos estão à nossa disposição e são adequados? O que podemos propor? Há estratégias fantásticas de que o professor pode lançar mão.

Na visão de Fernandes, “essa pode ser uma oportunidade única para termos uma visão mais cosmopolita do ensino. Mesmo confinados, podemos abrir a janela e as portas da nossa imaginação”. Aprendizagem entre pares e a mediação com signos e instrumentos antes não explorados podem ser um diferencial. Lembremos que Vigotski, por exemplo, desde o século passado, defendia tais práticas. A aprendizagem deve impulsionar o desenvolvimento, explorando as funções psicológicas superiores a partir do que é essencial e não periférico.

O mundo exige o trabalho colaborativo, por que então o individualismo é tão valorizado pela escola? Nessa lógica, a preocupação de muitos docentes neste momento passa a ser com a possibilidade de “cola”, o que só reforça a velha cultura de estudar para a prova, gerando muitas vezes angústia. Ora, o mais importante é planejar que tipo de atividades estão sendo propostas. Certamente aquelas que não oportunizam o processo de reflexão e a integração de conhecimentos, mas valorizam aspectos meramente memorísticos, propiciam essa conduta.

Ressaltamos ainda o feedback contínuo e diferenciado durante o ensino remoto ou a distância e a necessidade da autoavaliação. Para tanto, é preciso que o professor tenha critérios bem definidos, transparentes e organizados de forma participativa. Por meio do que Domingos Fernandes chama de “rubricas” (descritores de desempenho) da avaliação, três aspectos devem ser observados: 1) os estudantes devem saber o que irão aprender e como se dará esse processo; 2) em que situações se encontram em relação a essas aprendizagens; 3) que esforços terão que fazer para atingir o que está sendo proposto. Essas rubricas são facilmente conduzidas por meio de diversas ferramentas e são fundamentais para a autoavaliação, compreendida como um processo cognitivo, conforme explicou o professor. Não se trata de o estudante dizer “eu acho que mereço essa ou aquela nota”, mas de fazer uma reflexão a partir do que foi pactuado, entre o desejado e o realizado.

A partir dessa discussão e considerando a educação brasileira, há vários aspectos que podemos destacar. Entre eles, destaca-se que a falta de investimento na educação pública, o que incide não apenas em infraestrutura, mas na valorização do magistério e na formação docente, torna-se latente na atual crise sanitária que levou o país a decretar estado de calamidade pública. Com efeito, milhares de estudantes brasileiros estão totalmente desassistidos ou com condições precárias. Algumas poucas escolas e docentes estão se reinventando e alcançando seus estudantes, inclusive em regiões periféricas. Mas, em geral, temos observado tentativas amadoras e pouco efetivas. Podemos citar o que está sendo organizado até o momento pela Secretaria de Educação do Distrito Federal, com tele aulas gravadas, por vezes de forma caseira, e disponibilizada em canal de TV sem nenhuma interatividade entre professores e estudantes, tampouco atreladas ao currículo da escola e ao devido acompanhamento pedagógico. E a defesa para esse contexto de ensino remoto desarticulado não se justifica com o argumento “importante é a iniciativa de se fazer alguma coisa”. Educação não pode ser negligenciada, mesmo diante de uma situação tão adversa como essa.

Por outro lado, as escolas particulares se mobilizaram, buscaram alternativas e estão prosseguindo com as atividades. O problema é que muitas delas, preocupadas com a “prestação de serviço” e com o foco no cumprimento do conteúdo, desconsideram vários aspectos e submetem crianças e jovens a uma carga horária excessiva e que poderá trazer consequências danosas para saúde física e mental. Há vários relatos de sobrecarga e aumento da ansiedade, tanto de docentes quanto de discentes, além da negligência no atendimento das necessidades educacionais especiais. A maior parte dos estudantes com deficiências está totalmente marginalizada. Aulas remotas estão sendo ofertadas até mesmo para crianças da educação infantil, do maternal e da pré-escola, o que gera uma série de questionamentos. Essa temática ganhou inclusive destaque no chat e será objeto de outra webinar, sendo mesmo objeto de uma outra análise.

Alertamos que as atividades remotas não podem substituir integralmente as presenciais, mesmo que o período de isolamento social seja prorrogado. É preciso pensar, como reiterou Domingo Fernandes: o que é mais importante que crianças, adolescentes, jovens e adultos aprendam? O que é verdadeiramente fundamental ensinar? Quais as tarefas que os levam a pensar e são relevantes para o desenvolvimento dos processos mais elaborados do pensamento? Todas as páginas dos livros precisam ser preenchidas? Se a resposta à última questão for sim, esse atual formato, em especial, contribuirá muito mais para o aumento da ansiedade do que para a aprendizagem efetiva dos estudantes. Isso significa que o ensino ainda não conseguiu romper com a educação tradicional.

A implementação de ações díspares, sem a mediação direta de professores e com famílias sem condições de acessibilidade e de suporte ao processo educativo de crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos não conseguirá oportunizar ensino de qualidade. É urgente a necessidade de maior investimento na educação e valorização do magistério. O que seria da humanidade sem o avanço da ciência?

Enquanto isso, o Ministério da Educação suprime verbas de pesquisa e anuncia que a avaliação do Sistema de Educação Básica passará a ser anual e censitária, na falsa lógica de que medir é gerar qualidade, o que aumentará absurdamente o gasto com testes em larga escala. Uma contradição que vem sendo denunciada por vários educadores e associações de estudos e pesquisas educacionais.

Por fim, reiteramos que, em tempos de crise como a que estamos passando, a maior preocupação da escola seja pelo desenvolvimento integral de seus educandos, o que exige a organização do trabalho pedagógico sem desconsiderar o contexto vigente, as singularidades dos estudantes, as diferenças sociais e culturais. Que possamos reaprender a ensinar, pois certamente os estudantes de hoje não são os mesmos do século passado, assim como será a humanidade pós-pandemia.

Referência:

Como avaliar a aprendizagem dos estudantes em ambiente on-line? Webinar no Canal do Youtube do Instituto Ânima. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=y0wm9HSYX5o>. Acesso em 8 maio de 2020.

 

Retorno às aulas presenciais: a importância da retomada da avaliação

Por Benigna Villas Boas

Thomas R. Guskey, professor emérito da Universidade de Kentucky, nos Estados Unidos, publica um texto na Education Week do dia 06/07/2020 em que anuncia um debate “quente”, no atual momento da pandemia e quando as escolas reabrirem: será o caso de os professores retomarem a avaliação que vinha sendo desenvolvida nas aulas remotas?

As considerações de Guskey não se restringem à situação de pandemia. Referem-se ao trabalho pedagógico da escola em qualquer época.

Vejamos como o autor se posiciona. Os simpatizantes da ideia, diz ele, argumentam que, principalmente no caso do retorno às aulas presenciais, a possibilidade de a avaliação ter continuidade e não simplesmente ser ignorado o que foi feito anteriormente, seguindo outro rumo, reduz a ansiedade dos estudantes e lhes permite demonstrar com mais profundidade o que estão aprendendo. Já os seus críticos entendem que esse processo diminui a motivação dos estudantes e os encoraja a adotar pobres hábitos de estudo, que os tornarão mal preparados para os cursos de nível superior e para o mundo do trabalho.  

Recorrendo a Bloom e colegas, Guskey nos brinda com uma brilhante análise do tema, afirmando que poucos proponentes ou críticos dessa ideia sabem que ela pode ser compreendida a partir dos estudos realizados por Benjamin Bloom nos anos 1960. Este pesquisador observou que os recursos avaliativos utilizados por muitos professores, ao final de uma unidade, servem principalmente para confirmar para quais estudantes as atividades foram apropriadas ou não. Contudo, se esses recursos forem usados como parte do processo instrucional para oferecer feedback aos estudantes, tornam-se poderosas ferramentas de aprendizagem. Bloom denominou esse processo de avaliação formativa (BLOOM, 1968; BLOOM, HASTINGS and MADAUS, 1971). Esta posição de Bloom reforça nosso entendimento de avaliação como aprendizagem.   

A avaliação sozinha pouco faz para promover as aprendizagens. O que importa é o que acontece depois dela, completa Guskey: como os estudantes e professores usam seus resultados. Importante observar que o autor se refere a professores e estudantes, como requer a avaliação formativa, e não somente a professores.  

Bloom enfatiza que, para atender às necessidades detectadas, a avaliação formativa deve incluir instrução de alta qualidade. Esse processo inicial de atendimento às necessidades identificadas é conduzido na turma, sob a orientação do professor. Não se trata de atividades opcionais a serem realizadas pelos estudantes isoladamente, em forma de deveres de casa ou de sessões especiais de estudo após as aulas. Percebe-se, assim, como Bloom é exigente com a avaliação formativa.

Enquanto o professor trabalha com os estudantes que ainda não desenvolveram as aprendizagens requeridas, os que demonstraram estar em dia se engajam em tarefas de enriquecimento. Em lugar de seguirem adiante, aprofundam seus conhecimentos, completa Guskey.

Os estudantes que passam por atividades de intervenção, como hoje as denominamos, vivenciam o sucesso, de primordial importância em seu percurso escolar. Esta é a avaliação formativa em ação.

Guskey conclui seu texto afirmando que a questão “devem os estudantes receber uma segunda chance?” deve ser substituída por “Como podemos usar a avaliação para promover as aprendizagens?”  Se incentivamos o sucesso desde o início do processo de avaliação, muito provavelmente realizaremos o sonho de Bloom de termos todos os estudantes aprendendo.

O trabalho realizado durante as aulas remotas terá de ser articulado ao das aulas presenciais, quando estas forem retomadas. O que está acontecendo ou aconteceu nas primeiras não será arquivado. A avaliação formativa é que favorece essa conexão. O prosseguimento do trabalho será assegurado pela avaliação diagnóstica, parte integrante da avaliação formativa, de modo a se identificarem as possíveis necessidades de intervenção pedagógica, para que todos vivenciem o sucesso. Será um recurso para que esse tempo sombrio da pandemia tenha suas marcas minimizadas.

Referências

Bloom, B. S. (1968). Learning for mastery. Evaluation Comment (UCLA-CSEIP), 1(2), 1-12.

Bloom, B. S., Hastings, J. T., & Madaus, G. F. (1971). Handbook on formative and summative evaluation of student learning. New York, NY: McGraw-Hill.

 

Ebook “Diálogos Críticos – Vol. 2 – Reformas Educacionais: avanço ou precarização da educação pública? “

Prefácio – Luiz Carlos de Freitas

A pedagogia das competências na BNCC e na proposta da BNC de formação de professores: a grande cartada para uma adaptação massiva da educação à ideologia do capital – Átila de Menezes Lima e Ivânia Paula Freitas de Souza Sena

Política Nacional de Educação: o embate de projetos na educação do campo – Celi Nelza Zulke Taffarel e Erika Suruagy Assis de Figueiredo

Relações entre a BNCC, as questões extraescolares e a educação de nível médio no Marajó – Cleide Carvalho de Matos; Manuelle Espindola dos Reis e Natamias Lopes de Lima

Do SAEB à BNCC: padronizar para avaliar – Eliana da Silva Felipe

A (de)Formação de Professores na Base Nacional Comum Curricular – Kátia Augusta Curado Pinheiro Cordeiro da Silva

A BNC de formação e as DCN’s dos profissionais do Magistério e seus respectivos Projetos de Brasil – Maria Elizabeth Souza Gonçalves

BNCC e BNCF: padronização para o controle político da docência, do conhecimento e da afirmação das identidades – Salomão Antônio Mufarrej Hage; Leila Maria Camargo; Raimunda Kelly Gomes e Arthane Menezes Figueirêdo

Baixe aqui.

 

POSICIONAMENTO DO GEPA QUANTO À VALIDAÇÃO DE AULAS REMOTAS COMO DIAS LETIVOS

A Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal validará o ensino remoto emergencial a partir do dia 13 de julho de 2020

A Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEDF) anunciou que o DF retomará o calendário letivo de 2020 a partir do dia 13/07/2020, por meio do ensino remoto emergencial. Para terem acesso às aulas, os estudantes precisarão se cadastrar na plataforma Escola em Casa, para acessarem asala de aula virtual que opera por meio do Google Sala de Aula. Para aqueles que não possuem acesso à internet, uma parceria da TV Justiça com o Governo do Distrito Federal (GDF) levará o conteúdo até a casa dos estudantes pela televisão, em quatro canais diferentes, e no canal @Educadf disponível no Youtube.

As atividades pedagógicas de ensino remoto emergencial, síncronas ou assíncronas, serão consideradas como efetivo trabalho escolar e a carga horária trabalhada será utilizada para a substituição de carga horária presencial. Esta decisão converge com o estabelecido no parecer do Conselho Nacional de Educação nº 5/2020 e no Parecer do Conselho de Educação do DF, nº 33/2020, que conferem autonomia aos sistemas de ensino para ajustar suas organizações pedagógica, administrativa e calendário escolar, abrindo possibilidade para que as atividades não presenciais sejam computadas para fins de cumprimento de dias letivos.

É preciso registrar que, desde o início do isolamento social, medida adotada para enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional, decorrente do novo Coronavírus responsável pelo surto de 2019 – COVID-19, professores de escolas públicas e privadas têm interagido com estudantes e suas famílias em busca de maneiras de darem prosseguimento aos trabalhos escolares. Há relatos exitosos, mostrando a capacidade dos professores de se reinventarem, restabelecendo a fundamental parceria entre escola e família. Por outro lado, há depoimentos de professores e estudantes que ficaram totalmente desassistidos, por diferentes razões.

 A Subsecretaria de Educação Básica, da SEDF, está encarregada de readequar o currículo em movimento para o ano letivo de 2020, em todos os componentes curriculares e anos/séries, visando garantir a articulação entre as ferramentas pedagógicas disponibilizadas – plataforma, teleaulas e material impresso. Compete aos professores a elaboração de atividades pedagógicas não presenciais, tanto para disponibilizá-las nas salas de aula virtuais, quanto para usá-las como material impresso destinado aos estudantes que não tiverem acesso às aulas. A frequência escolar será computada por meio da entrega, aos estudantes, das atividades on-line ou impressas. Reforça-se a necessidade de trabalho colaborativo e o efetivo acompanhamento das Regionais de Ensino.

Há ainda a orientação de que “as atividades a serem entregues até o fim de cada bimestre/semestre, para efeitos de verificação de frequência e de avaliação para as aprendizagens, deverão ter caráter interdisciplinar, apresentar dinâmicas desafiadoras e partir das práticas sociais dos estudantes” (Plano de Gestão Estratégica para a Realização das Atividades Pedagógicas Não Presenciais da Rede Pública de Ensino, p. 15). Para isso, a Subsecretaria de Formação Continuada dos Profissionais da Educação (EAPE) promoveu, durante as duas semanas que antecederam o início do calendário de aulas remotas, a formação de professores e outros profissionais da educação para desenvolverem as aulas remotas. Mais de vinte mil professores foram atendidos em diferentes cursos: GSuit (ferramentas do google para a educação), Produção de Material Didático e Moodle on-line.

Todo esse esforço é válido, porém, conseguirá se estender, com a mesma qualidade, a todos os estudantes matriculados na rede pública de ensino? Certamente, não! Portanto, se a educaçãoé direito de todos, qualquer medida de segregação não pode ser aceita. Validar dias letivos, desconsiderando os milhares de estudantes que não conseguirão acompanhar as aulas remotas ou as atividades impressas, sendo, portanto, excluídos, é uma iniciativa descabida.

O que revelam as pesquisas?

Os números da Pesquisa TIC Kids Online Brasil, sobre o uso da Internet por crianças e adolescentes no Brasil, realizada em 2018, revelam que, entre crianças e adolescentes de 9 a 17 anos, 66% não se conectam à Internet em ambientes privados, seja na própria residência ou na residência de amigos e familiares. Além disso, esse número atinge 82% dos/as estudantes na zona rural, 70% entre os das classes D e E; 67% entre os da classe C e 58% entre os das classes A e B.

As pesquisas do PNAD (2018) indicam outros dados relevantes e que precisam ser considerados, especialmente quando se defende o ensino a distância ou mesmo remoto, em caráter emergencial. Entre eles, destacamos: 17,3% das crianças de 0 a 14 anos moram em residências que não têm acesso à rede geral de abastecimento de água e 40,8%, em locais sem conexão com o sistema de esgoto. Nas casas em que não há internet, as condições de saneamento são ainda piores: 29,3% sem rede de água e 60% sem esgoto. A Pnad mostraainda, que 15,1% das residências abrigam seis ou mais pessoas e, em 40%, há mais de três moradores por dormitório. Os computadores portáteis continuam concentrados nas famílias mais ricas: na classe A, 90% têm notebook e 49%, tablet. Nas camadas D e E, os índices são de 3% e 4%, respectivamente. As diferenças, portanto, são assustadoras.

Ademais, uma pesquisa do Instituto Península, realizada entre os dias 13 de abril e 14 de maio de 2020, entrevistou 7.734 docentes de todo o país e concluiu que 83% deles ainda se sentem despreparados para ensinar a distância.

De acordo com o Blog da Boitempo, “mais da metade dos estudantes da rede básica do estado de São Paulo, dentre os 3 milhões e meio de matriculados, nunca acessou e nem deu login no sistema de aulas online montado para a continuidade pedagógica durante a pandemia. A muitos deles faltam tecnologia e infraestrutura mais básica do que conexão e aparelhos eletrônicos, como saneamento básico, alimentação e o mínimo necessário para sobreviver a uma crise sanitária”. Se essa é a realidade da maior cidade do Brasil, a situação é ainda pior em cidades e municípios das regiões Norte e do Nordeste.

Recente pesquisa realizada pelo Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro-DF) indica números estarrecedores para a capital do Brasil: 26,27% dos 460 mil estudantes da rede pública de ensino do DF não têm condições materiais de assistirem e participarem de nenhum tipo de Educação a Distância (EaD). Isso significa que a adoção de EaD ou aulas remotas, neste período de pandemia, excluirá da educação mais de 25% dos estudantes.

Posicionamento do GEPA

Levando em conta as considerações anteriormente apresentadas, o Grupo de Pesquisa Avaliação e Organização do Trabalho Pedagógico – GEPA –  se posiciona contrariamente ao cômputo das atividades remotas na recomposição do calendário letivo, ao mesmo tempo em que se mantém firme na defesa da educação pública de qualidade social e contra qualquer iniciativa que conduza a desigualdades de acesso às aprendizagens.

Compreender a organização do trabalho pedagógico no ensino remoto, proposto por diferentes sistemas e redes de ensino, nos remete a pensar sobre a relação intrínseca entre objetivos e avaliação. Ambos atuam em conjunto. A avaliação fornece elementos para iniciar o trabalho pedagógico, para garantir sua continuidade ou sua reorganização em atendimento aos objetivos previamente estabelecidos e outros surgidos enquanto ele se concretiza.

No caso do ensino remoto em desenvolvimento nas escolas públicas do DF, interessa-nos saber qual é a real finalidade do processo avaliativo: contribuir para a construção das aprendizagens ou comprovar a não aprendizagem, já que os que não puderem acompanhar o trabalho remoto não terão direito às aprendizagens?  

A realização de atividades sem a devida mediação pedagógica e acompanhamento sistemático de professores pode ser um recurso utilizado na tentativa de diminuir os impactos da pandemia. Entretanto, a validação dessas atividades como dia letivo potencializará a exclusão dos estudantes sem condições de acompanharem as aulas remotas, o que aumentará as desigualdades educacionais. Além disso, ampliará as possibilidades de avaliação informal negativa. Sem condições de mediar o ensino, pais e familiares podem reforçar avaliações desencorajadoras, contribuindo para um clima tenso e desanimador para os filhos/estudantes.    

O ensino remoto, na presente situação, corre o risco de não atender a um dos princípios básicos do trabalho pedagógico: a salutar relação pedagógica que se estabelece entre os estudantes e entre estes e os professores. A falta de interação empobrece o ensino e a avaliação. Perpetua-se a velha lógica:  conteúdo dado, conteúdo cumprido.

A máxima que vem sendo difundida: “a escola precisa se reinventar” ou “o professor/a precisa se reinventar” precisa ser vista com cautela. Estamos em período de crise sanitária. Não vamos usar esse momento para banalizar ou simplificar o trabalho escolar.

Portanto, não há pontos e contrapontos. Temos um país com imenso abismo social e um pobre investimento em educação. Neste momento de enormes sacrifícios, precisamos de ter cuidado com a cultura do “oportunismo”. Não precisamos de Estado mínimo! Ao contrário, queremos mais ações sociais e um Estado que consiga de fato alcançar quem mais necessita. As escolas não precisam de pacotes tecnológicos, mas de recursos, valorização da carreira docente e gestão pública comprometida com a construção de uma educação de qualidade social.

O que pode ser feito? Pensando em alternativas

Diante da situação de calamidade pública que vivemos, o GEPA entende que o número de dias letivos só pode ser considerado a partir do retorno às atividades presenciais, o que exigirá a integração dos anos letivos de 2020 e 2021.

E como fazer com os estudantes do 3º ano do Ensino Médio, os concluintes da Educação de Jovens e Adultos e os da Educação Profissional? Excepcionalmente, para estes grupos, a SEDF poderá complementar o ensino remoto emergencial com atividades síncronas e interativas, desde que providencie as devidas condições de acesso para todos.

E as demais etapas e modalidades da educação básica? Terão a reposição de forma gradativa. Para isso, indicamos que a organização curricular seja revista. Um “currículo de transição” (SILVA, 2020) organizado pelo coletivo escolar, considerando as especificidades de cada escola, reúne chances de que sua implementação se dê de maneira exitosa. Propostas integradoras e interdisciplinares são muito bem-vindas. Há tempo defendemos que o “ensino em caixinhas”, com foco no conteúdo, tem que ser superado. Não seria esse o momento de tornar real esse propósito?

E como ficam os professores nesse período? Várias iniciativas podem ser incentivadas, assim como o efetivo e contínuo investimento na sua formação, mas sem torná-la obrigatória nem usá-la como dia letivo.

Escolas e professores podem estabelecer contato com estudantes e famílias para apoiar esse momento tão singular que estamos vivendo. Atividades podem ser realizadas e mediadas quando possível, com o uso de diferentes recursos. Tudo isso por meio de um planejamento cuidadoso e de muita atenção à saúde mental de crianças, jovens e adultos, não aumentando a ansiedade e a pressão propondo excesso de atividades.

Por último, recomendamos que, neste momento de enfrentamento da pandemia do coronavírus, não seja esquecida a autonomia pedagógica das escolas e dos seus docentes e que as ações das equipes gestoras sejam sempre respaldadas pela participação de professores, estudantes e seus pais/responsáveis.

Referências: 

BLOG DA BOITEMPO. O trabalho de educar numa sociedade sem futuro.Disponível em < https://blogdaboitempo.com.br/2020/06/05/o-trabalho-de-educar-numa-sociedade-sem-futuro/ > Acesso em 05 de junho de 2020.

CARLA, Maria. Mais de 120 mil estudantes da escola pública do DF não conseguem acessar a EaD. SINPRO-DF, 2020. Disponível em:  https://www.sinprodf.org.br/mais-de-100-mil-estudantes-da-escola-publica-do-df-nao-conseguem-ter-acesso-a-ead/>. Acesso em 01 de junho de 2020.

CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO – CNE. Parecer nº 5, de 28 de abril de 2020. DOU. 28/04/2020. Categoria: Especial Coronavírus.

GDF. SEEDF. Plano de Validação das Atividades Pedagógicas não presenciais. Brasília, 2020. Disponível em: <http://www.se.df.gov.br/wp-conteudo/uploads/2020/06/Plano_de_Validacao_das_Atividades_Pedagogicas_nao_Presenciais_versão final.pdf>. Acesso em 15 de junho de 2020.

SILVA, Francisco Thiago. Currículo de Transição: uma saída para a educação pós pandemia. Revista EDUCAmazônia – Educação Sociedade e Meio Ambiente, Humaitá. Ano 13, Vol XXV, Núm 1, Jan-Jun, 2020, pág. 70-77.

TENENTE, Luiza. 30% dos domicílios no Brasil não têm acesso à internet; veja números que mostram dificuldades no ensino a distância. G1, 26/05/2020. Disponível em: <

https://g1.globo.com/educacao/noticia/2020/05/26/66percent-dos-brasileiros-de-9-a-17-anos-nao-acessam-a-internet-em-ca sa-veja-numeros-que-mostram-dificuldades-no-ensino-a-distancia.ghtml>. Acesso em 26 de maio de 2020.